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Xico Graziano

Ocupação do cerrado foi uma verdadeira epopeia no campo

22 de abril de 2020 | 08h21 | Atualizado há 81 dias

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Símbolo da interiorização do país, Brasília comemorou 60 anos neste 21 de abril. O início de sua construção, em 1956, coincide com o momento em que a agricultura começa a olhar para o cerrado. Sem relação direta entre eles, dois eventos históricos importantíssimos iriam ocorrer.

A proposta de mudar a capital do país para longe do litoral é mais antiga que se pensa. Desde 1763 fixada no Rio de Janeiro, os inconfidentes a queriam estabelecer em São João del Rei. Determinada, em 1891, pela primeira Constituição da República, a ideia permaneceu em estudos até Juscelino Kubitschek decidir tirá-la do papel.

Começava a amadurecer, naquela mesma época, a possibilidade da expansão agrícola do Centro-Oeste. Há séculos se haviam ocupado beiradas de veredas e encostas de morros por aquela região, em Goiás principalmente. Mas imperava o latifúndio improdutivo e grassava a pobreza rural.

Em 1957, o geógrafo Esperidião Faissol publicou um relatório referindo-se ao desafio da agricultura em, após quatro séculos explorando a floresta tropical, tentar um "rejuvenescimento" na utilização produtiva do bioma do cerrado. Citado pelo historiador Claiton Márcio da Silva, autor de excelente artigo sobre "a grande aceleração e a fronteira agrícola do cerrado", Faissol "funcionário do IBGE" provocou a inteligência agronômica da época. Seria possível expandir a produção rural sobre aquelas terras arenosas e ácidas, cobertas por árvores pequenas e retorcidas, que por 6 meses não viam sequer uma gota de água?

Se, por seu lado, a construção de Brasília representa um marco na história política e administrativa do Brasil, fora a extraordinária categoria de sua arquitetura, a ocupação do cerrado nacional configura uma verdadeira epopeia no campo. A nossa conquista do Oeste.

Protagonistas principais, gaúchos e paranaenses, filhos de tradicionais agricultores que viviam apertados em seus sítios de origem, se aventuraram pelo Centro-Oeste à procura do sonho da riqueza rural. Meio século depois, bem que poderiam ser considerados heróis da pátria.

Nada teria dado certo se não fosse o conhecimento científico aplicado na agropecuária. Graças à pesquisa agronômica, liderada inicialmente pelo IAC (Instituto Agronômico de Campinas) e depois, a partir de 1974, pela Embrapa, dominou-se a aridez daquela região que corresponde à 25% do território nacional.

Fertilidade do solo, melhoria genética de variedades e sistemas de plantio adaptados formaram o tripé tecnológico dessa incrível história de sucesso no agro brasileiro. Hoje o Centro-Oeste produz 40% da safra de grãos do país e mantém 35% do rebanho bovino.

A interiorização do desenvolvimento brasileiro ocupa importância maior que a imaginada pela economia tradicional. Puxado pelo dinamismo do moderno agronegócio, um novo Brasil surge pelo interior afora. Atrás da soja, do milho, do algodão, do boi, surge o silo graneleiro, a agroindústria, a revenda de máquinas agrícolas e insumos, o frigorífico, o shopping center, a telecomunicação, a concessionária de veículos, o sistema financeiro, tudo. A cidade floresce na dependência do campo.

Vá a Luís Eduardo Magalhães, no Oeste da Bahia, a 1.000 quilômetros de Salvador, siga para Bom Jesus, na Serra do Quilombo do Piauí, suba para Balsas, no Maranhão, desça para Palmas, no Tocantins, estique até Rio Verde, em Goiás, depois atravesse para Chapadão do Sul, no Mato Grosso do Sul, daí rume para Sinop, capital do Nortão do Mato Grosso. A viagem permitirá verificar esse espantoso progresso que está ocorrendo distante da costa.

JK não imaginava que, ao construir Brasília, sinalizava para a agricultura avançar. E ela se rejuvenesceu na ocupação do cerrado do Centro-Oeste. Faissol estava certo.
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