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Xico Graziano

Em meio à crise econômica, há perda de alimento no campo, diz Xico Graz

08 de abril de 2020 | 11h30 | Atualizado há 95 dias

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A crise provocada pelo coronavírus está promovendo uma perversa alteração na cadeia produtiva dos hortifrutícolas. Redes de supermercados se favorecem na desgraça dos pequenos agricultores.

Acontece que os Carrefours e Pães-de-açúcar da vida contam com uma rede de suprimentos de gêneros hortifrutícolas bastante distinta daquela que abastece o comércio local, de bairros, de alimentos perecíveis.

Seus fornecedores são agricultores organizados, certificados, que seguem o padrão de uma agricultura denominada "contratual". Eles precisam manter qualidade, quantidade e regularidade nas entregas. São poucos, mas são eficientes. Por isso, entram no sistema qualificado das grandes gôndolas. Sua demanda é assegurada.

Por outro lado, milhares de pequenos produtores de verduras, legumes e frutas destinam, normalmente, sua colheita para os canais tradicionais de comercialização, principalmente os mercados regionais e as centrais de abastecimento, do tipo Ceasa. Em São Paulo, a Ceagesp é a mais conhecida.

Responsável por cerca de 60% do abastecimento de bares, feiras, quitandas, sacolões e tantos outros equipamentos varejistas na região metropolitana de São Paulo, a Ceagesp constitui uma "cidade" onde circulam (ou melhor, circulavam) 50 mil pessoas e 12 mil veículos, diariamente. Caminhões do Brasil inteiro trazem seus alimentos para serem no entreposto revendidos, distribuídos de Norte ao Sul do país.

A quarentena decretada pelo governo paulista não obrigou ao fechamento do grande mercado atacadista, por ser uma atividade essencial. Mas o temor do contágio com o vírus esvaziou a Ceagesp. Afinal, ali a aglomeração de pessoas era enorme. E o risco de contaminação pela covid-19, estupendo.

A queda do comércio dos vários Ceasas do país provocou uma desorganização do mercado atacadista de hortifrutícolas, trazendo reflexos terríveis aos produtores dos cinturões verdes, especialmente aquele localizados nas regiões metropolitanas.

Verduras, legumes e frutas começaram a sobrar nos boxes dos entrepostos. Elevaram-se as perdas e caíram os preços. Em decorrência, alfaces, rúculas, repolhos, tomates e que tais passaram do ponto nas hortas do país.

Criou-se, rapidamente, uma triste e paradoxal situação. Em meio à maior crise econômica da história, numa época em que muitas famílias poderão sentir falta de comida em sua mesa, em consequência da queda de sua renda, observa-se perda de alimento no campo.

Nesse contexto, em contraposição, no setor dos graúdos varejistas as vendas seguem turbinadas. A Associação Paulista de Supermercados informou nesses dias que o setor está abrindo 5.000 vagas na região metropolitana de São Paulo.

A tendência é global. Na Inglaterra, segundo informa o professor Marcos Fava Neves, foram abertas 45 mil vagas no mercado varejista. Nos EUA, o serviço Prime, da Amazon, vai contratar 100 mil pessoas para suas entregas no varejo on-line.

A questão remete ao tema da concentração econômica nos espaços urbanos. Deveríamos ser mais rigorosos na concessão de alvarás para funcionamento de grandes supermercados, avaliando-se o impacto danoso que podem causar no comércio local de alimentos frescos. À semelhança do estudo de impacto de vizinhança, previsto no Estatuto da Cidade (Lei 10.257/01).

Quitandas, frutarias e feiras-livres, tanto quanto açougues e peixarias, precisam ser preservados da feroz competição do grande capital. Esses pequenos equipamentos de abastecimento local valorizam o bairro. Basta conhecer Londres para verificar seu prestígio.

Aí está um aprendizado da crise: criar uma aliança entre o pequeno comerciante de alimentos in natura e o pequeno produtor rural. Somente dará certo, porém, se agradar ao consumidor. A dona-de-casa tem a palavra final.
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