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Xico Graziano

O agro garante a segurança alimentar do Brasil, destaca Xico Graziano

Investimento garante dispensa cheia mesmo durante crise e pandemia

01 de abril de 2020 | 09h10 | Atualizado há 102 dias

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Imaginem a cena: confinada em casa há dias, a pessoa se levanta, caminha até a cozinha, abre a porta da geladeira e encontra as prateleiras vazias. A quarentena contra o coronavírus acabou com a sua comida.

Trata-se, evidentemente, de um filme-pesadelo. Na realidade, em meio a tantas desgraças e medos, imune às encrencas políticas e disputas imbecis, distante das incertezas e notícias catastróficas, as famílias brasileiras continuam abastecendo normalmente sua dispensa. Não lhes têm faltado o arroz com feijão e mistura do dia-a-dia.

Segurança alimentar. Esse é o filme estrelado pelo agro nacional. Nenhum outro momento da história brasileira comprovou, de forma tão contundente, a capacidade da agricultura em garantir o consumo por alimentos da população. Aos ricos e aos pobres, o agronegócio funcionou sem pestanejar.

Nem sempre foi assim. Pelo contrário. Conforme atestam José Eustáquio Vieira Filho e Albert Fishlow, autores do extraordinário livro "Agricultura e Indústria no Brasil: Inovação e Competitividade" (IPEA, 2017), até a década de 1960 o Brasil era um grande importador de alimentos. Adquiria no exterior cerca de 30% da demanda interna. Até carne de frango o país importava.

Na década de 1970 começou o forte processo de modernização capitalista do campo. Em pouco mais de duas décadas, a situação se inverteu. De importador, o Brasil começou a ser exportador de alimentos para o mundo. Hoje, além de abastecer o mercado interno, o país exporta para cerca de 160 países. Estima-se que 1 bilhão de pessoas mundo afora coloque em sua mesa o produto verde-amarelo.

Vários estudos atestam que o desenvolvimento da agricultura brasileira está baseado no crescimento da produtividade. Trabalho de Elizeu Alves, Souza e Rocha (2012), calcula que um aumento de 100% na renda bruta agrícola se explica, em 68%, pela tecnologia, seguido do trabalho (23%) e pela terra (9%)*.

Ou seja, a intensificação da produção rural, possibilitada pelos investimentos em tecnologia, conseguiram mudar o drive da agricultura brasileira. Deixou de ser latifundiária para ser progressista. É por isso que, agora, enfrentando essa terrível crise causada pelo coronavírus, a geladeira do povo continua abastecida.

Essa enorme virtude do agro nacional ?garantir a segurança alimentar e, ademais, caminhar para ser o celeiro do mundo? nunca foi corretamente valorizada pelos nossos formadores de opinião. Fruto de suas mazelas históricas, guarda-se ainda na sociedade certo menosprezo pela importância do campo no desenvolvimento nacional.

Chega a ser paradoxal. As cidades estão quase paradas, praticando o isolamento social recomendado para evitar a disseminação da covid-19. Lá no interior, porém, o trabalho está acelerado. Os agricultores colhem a maior safra de grãos da nossa história. E neste março, a produção e exportação de carnes também deverá ser recorde.

Pode ser que muitas famílias venham a passar aperto nesses meses, encontrando sua geladeira vazia. Essa tragédia, porém, se acontecer, será ocasionada pela perda de sua capacidade aquisitiva. Sem dinheiro no bolso, a fome ronda.

Mas esse é outro filme, triste, por certo, que será rodado em decorrência da paralisação da economia para combater um desgraçado vírus em um pobre país. Dele, a agricultura não é personagem.

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