Xico Graziano

Meio ambiente não pode excluir o ser humano, analisa Xico Graziano

10/07/2019 10h16

Uma maldade ambientalista. É o que o ICMBio faz contra Dona Neide (85, paciente de Alzheimer) e sua filha Cláudia (60, autista em grau elevado). As expulsa, sem comiseração, de sua moradia ecológica em Itatiaia (RJ). Só vendo para crer.

Quem conta essa história é Hugo Penteado, filho de Dona Neide. O executivo abandonou uma carreira de sucesso no ramo financeiro para, há alguns anos, ir cuidar dos familiares na moradia da serra. Mal poderia supor padecer nas regras tortas da política ambiental brasileira.

O Núcleo Colonial de Itatiaia, palco desse inusitado conflito ambiental, é centenário. Originado de um projeto estatal buscou, no longínquo 1908, atrair imigrantes para aqui produzirem frutas e demais gêneros alimentícios destinados ao Rio de Janeiro.

Evoluiu. Por volta de 1930 a vila rural, que centralizava os sitiantes europeus, continha cerca de 200 famílias. Os atrativos ecológicos trouxeram, naquela época, a instalação de 5 hotéis no Núcleo. Tudo funcionava bem.

Interessado na preservação daquela magnífica área, cheia de cachoeiras e rica biodiversidade, o governo federal decidiu criar ali o Parque Nacional de Itatiaia. Nascia assim, em 1937, a nossa primeira unidade de conservação ambiental.

Durante quase 50 anos reinou a harmonia entre natureza e homem. A produção agrícola, entretanto, praticamente desapareceu, sobrepujada pela contemplação e o lazer. Restaram poucas vacas leiteiras que parecem fazer parte da paisagem original.

Em 1982, aconteceu o inusitado: uma ampliação da área do Parque Nacional incorporou, de forma surpreendente, o núcleo urbano ao novo perímetro protegido. Daí em diante, começou o problema.

Passando a fazer parte do Parque, o Núcleo de Itatiaia ficou paralisado. Seu destino passou a ser a demolição, incluindo os hotéis. Segundo a legislação das Unidades de Conservação, ratificada em 2000, ninguém mais poderia, sequer, viver ali. Uma barbaridade.

A preocupação dos pacatos moradores do Núcleo de Itatiaia só não se transformou em revolta porque, de fato, nenhuma ação de desapropriação se moveu, pelo Estado, contra eles. Embora com o jugo no pescoço, quase 20 anos de sossego se passaram.

Em 2010, começou seu inferno. O ICMBio intimou os proprietários do Núcleo de Itatiaia a abandonarem suas casas. Desse momento em diante, tradicionais moradores passaram a ser tratados como intrusos. Resistiram. Começaram a ser expulsos.

Os gestores do ICMBio colocaram em prática uma ideologia que trata o meio ambiente como se fosse o "meu" ambiente. No preservacionismo puro que advogam, nenhum ser humano, exceto eles mesmos, podem daquela riqueza usufruir.

Segundo essa visão, tacanha, atividades humanas são, sempre, ameaçadoras à proteção ambiental. Devem, portanto, serem excluídas das unidades de conservação.

Milhões de reais, e muito esforço, se mobilizaram para aniquilar o histórico, e precioso, Núcleo de Itatiaia. Os moradores se defenderam. É impossível, argumentaram, que uma área, antropizada há mais de 100 anos, tenha que ser surrupiada em nome do meio ambiente. Foram à Justiça. Perderam.

Parece mentira, mas é uma triste realidade. E não se trata de exceção. Por todo o Brasil, núcleos humanos antigos, incluindo vilas de caiçaras e pescadores, nas regiões litorâneas, brigam para permanecer vivendo em paz dentro de Parques e Reservas Ambientais que caíram sobre suas cabeças.

A regra é não indenizar ninguém. Joga-se para as calendas a solução dos conflitos. Escritórios de advocacia adoram essa pendenga ambiental. Movem ações de desapropriação indireta, realizam laudos e vistorias, reuniões e mais reuniões. Mobilizam-se esforços, brigas, política. Tudo. Para nada.

O caso do Núcleo de Itatiaia indica que o ambientalismo brasileiro anda meio caduco, carecendo de uma reciclagem. A questão não é, propriamente, política. Trata-se de uma mudança conceitual.

No mundo todo, o turismo ecológico se transformou no maior aliado da conservação ambiental. Empresas, e pessoas, ao invés de serem expulsas, são convidadas a participar, conjunta e reguladamente, da gestão sustentável.

Investimentos, públicos e particulares, se somam para, ao mesmo tempo, proteger e explorar, sem destruir a natureza. Meio ambiente inclui, jamais pode excluir, o ser humano.

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