Xico Graziano

Ser de direita ou de esquerda, ou nenhuma delas?, pergunta Xico Grazian

05/12/2018 09h21

Li na revista Veja que Olavo de Carvalho, trazido como o "novo guru da direita", foi comunista em sua juventude. Acredito. Naquela época, anos 1970, a doutrinação ideológica era ferrenha.

Quase todos os universitários, eu entre eles, militavam na esquerda marxista.

Fomos, aos poucos, os não dogmáticos, caindo fora dessa roubada. Razões variadas explicam tal mudança de posição política. Começa pelo famoso discurso de Kruschev (1956), tardiamente aqui divulgado, mostrando as atrocidades do regime stalinista na União Soviética.

Depois, veio o "Arquipélago Gulag", impactante livro de Alexander Soljenítsin, cuja edição em língua francesa saiu publicado em 1974. Preso, acusado de traição, o prêmio Nobel de literatura contava a triste história dos campos de concentração soviéticos.

Uma razão especial me afetou. Poucos sabem, mas Nikita Krushev era, como eu, engenheiro agrônomo. Quando soube, pelas palavras dele, que a coletivização forçada da agricultura soviética dizimou 10 milhões de camponeses, resolvi pular desse barco furado.

Coincidentemente, Mikhail Gorbatchov, que mais tarde estourou de vez o sistema soviético, também é engenheiro agrônomo. Defendia ele, assim, a liberdade de produção no campo, longe das burocráticas, ineficientes e corruptas cooperativas mantidas pelo Estado comunista.

A queda do muro de Berlim (1989) sepultou a era socialista. Nesse mesmo ano terminei meu doutorado na FGV/SP. Minha tese, intitulada "A Tragédia da Terra" (1989), esculhambava o modelo brasileiro de reforma agrária, implantado sem nenhum planejamento, puxado pelas invasões de terra do MST. Não tem como dar certo.

Meu pai, conservador, dizia que quando eu envelhecesse mudaria de opinião. Mais que a idade, a descoberta da verdade alterou meu pensamento. A história retirou o véu que escondia a maldade da utopia comunista.

Estranho, nesse processo político dos últimos 50 anos, não é quem mudou a cabeça, mas sim quem permaneceu parado no tempo, acreditando nas mesmas teses de antigamente.

Velhos comunas, obtusos, continuam achando que a luta de classes impera no mundo atual. Patético.

Pior, ainda, é ver certos jovens de hoje se seduzirem pelos ideais da sociedade coletivista. Bradam contra a "opressão capitalista", defendem Cuba, Coreia do Norte, Venezuela, como se o socialismo fosse o reino da liberdade e do progresso. Risório.

O século 21 não admite ser construído com as receitas ideológicas do século 20. Concepções antigas foram ultrapassadas pela sociedade tecnológica e conectada em rede. Essa nos trouxe uma maravilha: a transparência. Hoje sabemos tudo, sobre qualquer assunto.

Direita ou esquerda, ou nenhum deles? Cada qual tenha sua crença. Os muros a serem derrubados existem dentro de nós.

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