Xico Graziano

Como será o futuro dos alimentos orgânicos no Brasil -por Xico Graziano

07/11/2018 10h10

Pergunta: qual intervenção pública é capaz de reduzir a marginalização da produção orgânica de alimentos?

Resposta: subsidiar os cultivos de base familiar. Certo ou errado?

Muito discutível.

A pergunta 79 da prova de ciências humanas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2018 trouxe um enunciado tendencioso. Por quê? Pelo fato de associar a agricultura orgânica à produção familiar não capitalista no campo. Refletiu uma visão típica da esquerda agrária, aquela alinhada ao MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra).

É verdade, e notório, que os alimentos orgânicos estão ganhando relevância econômica em todo o mundo. No Brasil também. Quem puxa essa dinâmica é a demanda por alimentos saudáveis, incluindo o pavor dos consumidores de alta renda pelos agrotóxicos.

Configura-se assim, crescentemente, um fabuloso nicho de mercado, sofisticado, que paga elevados preços em troca de um conceito ecológico. As elevadas margens de venda atraem novos investidores, rurais e urbanos, interessados em se aproveitar desse lucrativo negócio.

Dois movimentos globais, ocorridos em 2017, indicam as tendências desse mercado: 1) a aquisição da rede de varejo Whole Foods pela Amazon, nos EUA e 2) a compra da Mãe Terra pela Unilever, no Brasil. Mostram a entrada de gigantes capitalistas no ramo dos alimentos orgânicos.

Três grandes usinas brasileiras dominam, há tempos, o mercado de açúcar orgânico: a líder São Francisco, em Sertãozinho (SP), a Jales Machado, em Goianésia (GO) e a Goiasa, em Goiatuba (GO). Somadas, plantam cerca de 50 mil hectares certificados de cana-de-açúcar. Capitalismo puro.

O grupo Andrade Sun Farms, situado em Mogi Mirim (SP), colhe limão Taiti em 1.200 hectares plantados sob produção orgânica, atendendo aos mercados externo e interno. A Rio Bonito Orgânicos, de Itatinga (SP), utiliza estufas high-tech para produzir excelentes tomates destinados às prateleiras da classe A.

Melhorias tecnológicas no setor de orgânicos têm sido essenciais para consolidar esse nicho. Verduras, frutas, mel, cachaça, biscoitos, shampoos, em variados setores, incrementa-se a produção caseira, tradicional, com boa tecnologia. Inclusive nas embalagens.

Resultado: o capitalismo, inteligentemente, apossou-se da agenda que, antes, estava dominada pelos chamados agricultores "alternativos", esotéricos. "Bicho-grilo" anda desaparecendo no campo.

Recente pesquisa do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) realizou uma radiografia, com 1.142 entrevistados, da produção orgânica no Brasil. Um resultado interessante mostra que 72% realizam sua gestão financeira com ferramentas digitais, e somente 21% o fazem na antiga "caderneta de anotações". Mudança.

Conclusão: o "agroecologismo", articulação política do esquerdismo verde, vem sendo ultrapassado pelo "capitalismo ecológico". Orgânico virou negócio e não mais, apenas, filosofia bucólica.

O nicho dos alimentos orgânicos representa, sim, uma excelente oportunidade de geração de renda para os pequenos produtores rurais, aqui denominados de "agricultura familiar". Mas a chave do sucesso está no drive tecnológico, jamais no cabo da enxada.

Qual a melhor forma de apoio governamental ao setor de alimentos orgânicos, conforme perguntava o Enem?

Primeiro, não atrapalhar o setor com normas obsoletas e sem fundamentação científica; segundo, fiscalizar a produção e o mercado para evitar a picaretagem; terceiro, financiar os produtores, nos moldes do já existente ABC Orgânico, linha de crédito do programa de Agricultura de Baixo Carbono.

Fora disso, é ideologia. Nota 0 para quem elaborou a questão do Enem.

Leia outros artigos de Xico Graziano