Xico Graziano

Chega de baixaria no campo da democracia, diz Xico Graziano

05/11/2018 11h54

Era 3 de novembro de 2014. As eleições mal haviam finalizado, e já tinha gente batendo bumbo pedindo o impeachment de Dilma. Achei esdrúxulo. Parecia uma canelada no futebol.

Critiquei o movimento, taxando-o de antidemocrático. Foi um perereco. Acusado de ser "esquerdopata", "petralha infiltrado", apanhei feio da militância de direita, que não aceitava a vitória do PT. Queriam ir imediatamente para a desforra.

Hoje, a situação se inverteu. Agora é o pessoal da esquerda radical que, derrotada, renega a vitória de Jair Bolsonaro. Em vídeo, Boulos anuncia que farão resistência nas ruas para "defender a democracia". É grotesco. Esses, que me elogiaram no passado, por eu defender o mandato de Dilma, agora me xingam de "fascista", por ter apoiado Bolsonaro.

Utilizo meu caso pessoal para argumentar em defesa da democracia. Desiludido com a política, tornei-me equidistante da direita e da esquerda. Lixo-me atualmente para tal roupagem ideológica. O que importa, isso quero destacar, é o princípio que rege o Estado Democrático de Direito.

Você pode ser o que quiser, estar em qualquer partido, defender variadas causas, aplaudir quem seja, um valor supremo se impõe: o valor da democracia. Livre expressão de opinião, respeito ao desejo da maioria, garantia do direito das minorias.

É simples e fácil o enunciado básico da democracia: todo poder emana do povo. Difícil é ser, verdadeiramente, um democrata. Aceitar a derrota, fazer autocrítica, cumprimentar o vitorioso. Submeter-se ao voto, a mais potente arma da democracia.

Esse apelidado "terceiro tempo" eleitoral, repetido com sinal trocado neste ano de 2018, mostra que, por aqui, tanto a direita como a esquerda, em suas variações nervosas, padecem do mesmo mal: ambas são autoritárias.

Fingem apreciar as regras da democracia, mas no fundo gostariam mesmo, se pudessem, de tomar o poder pela força, impondo sua vontade à nação. Curioso é que, ambas aquelas ideologias, tencionam dar seu golpe em nome do povo. Sempre foi assim. O povo paga a conta das idiossincrasias despóticas.

Dizem ser a tolerância a mais simples e a mais difícil das virtudes. Nesse contexto político polarizado e conflituoso, facilitado pelas redes sociais, em que vivemos atualmente no Brasil, se sobressai a beligerância. Aceitar o pensamento oposto, nem pensar. A ira amordaça a paz.

É muito preocupante. Veremos o andar da carruagem. Tudo indica tempos difíceis pela frente. Sinais positivos, porém, surgem. Haddad, inicialmente agressivo e descortês, recolheu-se ao seu lugar de perdedor, anunciando que voltará a lecionar na USP.

Bolsonaro, que esticou a corda quase ao limite, deu entrevistas mais conciliadoras, com a imprensa mostrando seu lado familiar e simplório. Desanuvia-se o horizonte.

Alternância de poder é um dos fundamentos da democracia. Muda o governo e altera-se a agenda da sociedade, permitindo a confrontação de ideias, projetos, propostas. Os que perdem, não gostam, resistem, acham que vai tudo dar errado. Os que vencem estão seguros de seu sucesso. Nesse embate, quando sadio, a sociedade sempre ganha.

Por 24 anos assistimos ao jogo político do azul contra o vermelho. Infelizmente, a contenda virou uma baixaria geral. No esporte da política, o cartão vermelho é dado pelo povo, livremente, nas urnas. Aconteceu.

Bolsonaro está montando seu time, com novas estratégias, dribles diferentes. Quem quiser participar, suba na arquibancada. Quem torce para outro time, fica em casa. O que não pode é dar pontapé, nem torcer contra o país. Chega de baixaria no campo da democracia.

Foto: Sérgio Lima/ Poder 360

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