Lito Cavalcanti

Também na F-1, quem tem mais chora menos

06/01/2020 15h42

Em sua mais recente edição, a revista norte-americana "Forbes", dedicada à economia e às finanças, avaliou as equipes da Fórmula 1 e os lucros que elas geram. Não por surpresa, coube à Ferrari o título de mais valiosa: seu valor atinge nada menos de um bilhão e 200 milhões de euros (R$ 5,45 bi), batendo sua arquirrival Mercedes, avaliada em 902 milhões de euros (R$ 4,1 bi).

É incontestável que um dos principais fatores desse julgamento se deve à longuíssima tradição da Ferrari, presente a todas corridas da F-1 desde a segunda etapa do primeiro campeonato, em 1950. Mas na geração de lucros, o que mais pesa são os seis títulos consecutivos da Mercedes, série iniciada em 2014 com a introdução dos motores híbridos. Neste quesito, a escuderia alemã atinge a cifra de 402 milhões de euros (R$ 1,82 bi), a Ferrari, cujo último título entre os construtores foi em 2008, gera 380 milhões de euros (R$ 1,72 bi).

A Red Bull é a terceira, distante das duas líderes, que vale 572 (R$ 2,6 bi) e tem lucro de 291 milhões de euros (R$ 1,32 bi). A quarta colocada é a McLaren, com 555 (R$ 2,52 bi) e 147 milhões (R$ 667 mi), seguida pela Renault, cujo valor é de 384 (R$ 1,74 bi) e lucra 174 milhões (R$ 790 mi), e a Williams, com 357 (R$ 1,62 bi) e 157 milhões de euros (R$ 713 mi). Os resultados das duas tradicionalíssimas equipes inglesas revela a importância da tradição, mas elas geraram menos lucro do que a equipe da montadora francesa.

Mesmo tendo em 2019 um bom ano, a McLaren ainda se recupera do declínio iniciado em 2013 e agravado de 2015 a 2018, os anos de péssimo convívio com os motores Honda. Pior ainda é a situação da Williams, que desde 2005, seu último ano com os motores BMW, só apareceu uma vez entre os três primeiros no campeonato de construtores. Foi em 2014, quando a maior potência dos motores Mercedes lhe permitiu superar as muitas deficiências do carro.

Mesmo tendo em 2019 um bom ano, a McLaren ainda se recupera do declínio iniciado em 2013 e agravado de 2015 a 2018, os anos de péssimo convívio com os motores Honda. Pior ainda é a situação da Williams, que desde 2005, seu último ano com os motores BMW, só apareceu uma vez entre os três primeiros no campeonato de construtores. Foi em 2014, quando a maior potência dos motores Mercedes lhe permitiu superar as muitas deficiências do carro.

A sétima colocada é a Toro Rosso, avaliada em 178 milhões de euro (R$ 808 mi) com 153 milhões (R$ 695 mi) de lucro, à frente da Racing Point, que vale 116 (R$ 527 mi) e tem lucro de 93 milhões (R$ 422 mi), e da Haas, 102 (R$ 463 mi) e 85 milhões (R$ 386 mi). A 10ª e última nessa escala milionária é a Alfa Romeo, avaliada em 94 (R$ 427 mi) com lucro de 75 milhões (R$ 341 mi).


Kubica, o melhor investimento da Alfa Romeo

Sob essa ótica, ganha importância a contratação de Robert Kubica pela Alfa Romeo. Exaurida financeiramente, a equipe suíça contará com a experiência do piloto polonês como terceiro piloto, a quem caberá o importantíssimo trabalho de aperfeiçoamento no simulador, um acessório de que a equipe nunca dispôs.

Igualmente importante é a injeção financeira que vem junto com Kubica. Ele traz um vultoso patrocínio da petroleira PKN Orlen, listada entre as 100 principais empresas no prestigioso ranking Thompsons Reuters TOP100. De origem polonesa, este grupo atua também na Alemanha, República Checa, Lituânia, Eslováquia e no Canadá, e é hoje a maior empresa da Europa Central e Oriental.

É exatamente a chegada da PKN Orlen que permitiu à Alfa Romeo investir em um simulador. Seu custo mínimo é de 40 milhões de euros (R$ 182 mi), e suas atualizações, tão frequentes quanto necessárias, tornam o gasto total incalculável. Mas sem essa ferramenta não há perspectiva de sucesso. Para dar um exemplo, após as quatro primeiras corridas de 2019, a equipe suíça somou mais pontos do que a Renault e a Toro Rosso, mas terminou o ano bem atrás de ambas, porque não conseguiu acompanhar o ritmo de desenvolvimento aerodinâmico das adversárias.

Some-se a isso o trabalho de Kubica no simulador, comprovadamente o mais eficiente da F-1 na atualidade, para que a equipe, a partir deste ano denominada Alfa Romeo Racing Orlen, olhe para o futuro imediato com um certo otimismo.


Uma decisão nem tão discutível.

Não deixou de surpreender a decisão de Felipe Drugovich de passar para a Fórmula 2 neste ano. Para alguns, essa mudança pode parecer precipitada, mas não para quem acompanha a carreira desse jovem piloto. Apesar de ter apenas 19 anos, esse paranaense teve uma carreira sólida no kart europeu de 2013 a 2015. No ano seguinte, fez a transposição para os carros, mais especificamente a Fórmula 4 da Alemanha e da Itália.

Depois de um primeiro ano em que adquiriu experiência, Felipe brilhou intensamente nos mesmos campeonatos em 2017, com 13 vitórias em 27 corridas. Ele fechou o ano no MRF Challenge, a F Renault 2.0 oriental, obtendo 10 vitórias, 13 pódios, cinco pole positions e seis voltas mais rápidas em 16 corridas. Em 2018, transferiu-se para a Euroformula, que conserva as regras da F-3 tradicional, e esmagou a concorrência vencendo 14 das 16 corridas, subindo ao pódio em todas elas, além de largar 10 vezes na pole position e estabelecer o mesmo número de voltas mais rápidas.

As preocupações com uma pretensa precipitação se originam no fraco resultado que obteve no ano passado na F-3 FIA, antiga GP3. Integrando a discutível equipe Carlin, da Inglaterra, ele foi apenas o 16º colocado depois de marcar pontos em uma única etapa, em Hungaroring, onde foi o sexto colocado - o melhor resultado de um piloto da Carlin no ano. A equipe foi a penúltima entre 10 concorrentes, e seu segundo melhor resultado foi o nono lugar do norte-americano Logan Sargeant, que, como Felipe, teve uma carreira estelar no kart europeu e vinha de resultados promissores na F Renault europeia até ingressar na F-3 FIA.

Nos testes realizados pela F-2 no final de 2019, no circuito de Abu Dhabi, Felipe teve o primeiro contato com os carros da categoria, mais potentes e mais pesados, junto à equipe holandesa MP, modesta mas competente. Depois de terminar o primeiro dia em 16º, o paranaense evoluiu para 10º no segundo e 11º no terceiro e último.

É com essa mesma equipe, a MP, que Drugovich vai disputar as 24 corridas do campeonato de Fórmula 2 no próximo ano. Ele terá como adversário um outro estreante promissor, Pedro Piquet, que foi o quinto colocado na F-3 em 2019, com uma vitória, três pódios e uma volta mais rápida, correndo pela equipe Trident, da Itália. Pedro foi 11º, oitavo e 10º nos três dias de testes em Abu Dhabi, com a equipe Charouz.

Considerando as dificuldades que as equipes podem enfrentar no ano que vem, quando a F-2 mudará dos pneus de aro 13 para os de aro 18, 2020 pode ser um ótimo ano para os pilotos mais jovens ingressarem na categoria. Principalmente os que têm boa qualidade no acerto dos carros, caso em que se enquadram tanto Pedro Piquet como Felipe Drugovich.

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