Lito Cavalcanti

Hamilton vence e agita mercado de pilotos

02/12/2019 14h08

A última etapa do calendário da Fórmula 1, o Grande Prêmio de Abu Dhabi ontem (1º), serviu como spoiler de como será 2020. Cobiçado por todas equipes, Lewis Hamilton deu mais uma demonstração enfática de sua enorme capacidade. Fez a pole position, o que já não conseguia desde o GP da Alemanha, no final de julho, liderou de ponta a ponta e ainda fez a volta mais rápida da corrida, o novo recorde do circuito de Yas Marina.

Uma exibição de gala que aguçou ainda mais a disputa por seus serviços em 2021. De um lado, a Mercedes, equipe pela qual o piloto inglês corre desde 2013 e com quem conquistou cinco de seus seis títulos mundiais. Do outro, a Ferrari, a glamurosa Scuderia Rossa que consagra todo e qualquer piloto a quem um dia decida confiar seus carros.

O próximo ano, 2020, verá o encerramento dos contratos de cinco super estrelas da F1: Hamilton, Max Verstappen, Valtteri Bottas, Sebastian Vettel e Daniel Ricciardo. Todos com currículo suficientemente estrelado, todos capazes de cativar as atenções das grandes equipes. Mas é Hamilton o preferido. E a contenda para tê-lo em 2021 já teve início.

Além da velocidade espantosa, ele acumula experiência e, mesmo aos 34 anos, ostenta forma física impecável. No plano psicológico, é hoje um modelo de firmeza e determinação. Nunca se furta aos novos desafios, reconhece e trata com gentileza os jovens talentos que o desafiam. E a tudo isso soma uma personalidade carismática: é atento ao meio ambiente, cria sua própria moda, impõe seu estilo pessoal ao desafiar o conservadorismo da F-1 com suas tatuagens, está sempre disposto a dar opiniões sobre o que bem entende e não se submete a discursos padronizados.

A primeira notícia surgiu na italiana Gazzetta dello Sport. Hamilton teria conversado por duas vezes com o presidente da Ferrari, o americano John Elkann. Mattia Binotto, o chefe da Scuderia, aumentou a temperatura ao afirmar que a notícia de que Hamilton estaria disponível só poderia deixá-lo feliz.

Perguntado sobre o assunto, o piloto não se esquivou. "Não vejo nada de errado em dar uma olhada no que me cerca. Estive na Mercedes nos últimos sete anos, adoro a equipe e, em princípio, não planejo deixá-la, mas sempre temos de avaliar nossas possibilidades. Tanto eu quanto Toto Wolff [o chefe da equipe alemã] estamos fazendo essa avaliação. Para mim, o mais importante é vencer, quero estar na equipe que me der mais chances de vitórias".

Esta última frase de Hamilton parece tranquilizar Toto Wolff, que admitiu que há chances de sua equipe perder seu principal patrimônio. Ele orça em 25 por cento essa possibilidade, mas sabe que a decisão depende do desempenho tanto de sua equipe quanto da adversária. E se a Ferrari teve poucos bons resultados neste ano, é inegável sua tendência positiva em 2020.

Ferrari precisa crescer para ter chance

Se o começo do ano foi marcado pelo desapontamento, a reação que se verificou após as férias de agosto foi uma prova enfática da capacidade de reação do corpo técnico da Ferrari. Seus recursos tecnológicos e financeiros são pelo menos comparáveis aos de qualquer outra equipe. A maior parte de seus fracassos ocorreu por falhas humanas - principalmente as decisões estratégicas, cuja correção não chega a ser das mais difíceis.

Fique ou parta, a movimentação do hexacampeão inglês terá repercussão sobre diversos de seus colegas. A começar por Sebastian Vettel e Max Verstappen. Para o primeiro, é a quase certeza de ver chegar ao fim sua vida na Ferrari, mas não na F-1. Isso porque Verstappen seria a escolha natural para a sucessão de Hamilton na Mercedes e, igualmente, de Vettel na Ferrari - abrindo a oportunidade para o alemão retornar à Red Bull, onde conquistou seus quatro títulos mundiais.

Bottas cresce e aparece

Essa movimentação também afetaria Valtteri Bottas, que evoluiu muito neste ano - como comprovaram suas quatro vitórias e a escalada da última posição no grid para o quarto lugar na bandeirada. Uma de suas principais qualidades é saber em que ainda precisa evoluir para se equiparar a Hamilton, o que praticamente lhe garante a permanência na Mercedes. Principalmente com a chegada de um novo piloto, seja ele Verstappen ou outro qualquer.

Esse outro qualquer poderia ser algum dos jovens pilotos da Mercedes, como o inglês George Russell, que fez bom papel neste seu ano de estreia, mesmo estando na Williams. Mas há quem aposte pesadamente em Daniel Ricciardo. Também sem um carro que lhe permitisse lutar por vitórias e nem mesmo por pódios, o australiano se comprovou como a melhor qualidade da Renault, que teve mais um ano de frustração.

Em menor dimensão, também podem ser beneficiados pilotos em ascensão como o espanhol Carlos Sainz, cujas atuações ajudaram muito a McLaren a se reerguer depois de anos difíceis. Sexto colocado no campeonato deste ano, posição assegurada com uma ultrapassagem brilhante sobre o experiente Nico Hulkenberg na última volta do ano, ele quebrou a hegemonia das três equipes grandes.

Por enquanto, não há nenhuma indicação do caminho que Hamilton seguirá em 2021. Essa decisão depende do lado financeiro, já que esse será provavelmente seu último contrato como piloto. Mas o fator decisivo será sua percepção de qual equipe será capaz de produzir o melhor carro dentro das novas regras técnicas.

Se a Mercedes teve neste ano o carro mais completo, conquistando 15 vitórias, 10 pole positions e nove voltas mais rápidas em 21 corridas, não se pode ignorar a evolução da Red Bull, já visível na segunda metade deste ano, e da Ferrari. O principal problema da Scuderia foi a insuficiência de pressão aerodinâmica decorrente da escolha de um conceito que se mostrou errado. Mas sua correção nada tem de complicado, principalmente porque não haverá mudança de regras no próximo ano.

2020 começa amanhã

E 2020 já começa nesta terça-feira (3), com o teste definitivo dos novos pneus. Eles já passaram por uma degustação mal sucedida na primeira sessão de treinos livres do GP dos EUA, no Circuito das Américas, em Austin. A grande maioria dos pilotos reclamou da aderência, menor que a dos pneus atuais. Ao ponto de se cogitar a adoção dos mesmos pneus de 2019 no ano que vem.

A Pirelli contra-argumentou dizendo que os carros estavam acertados para os pneus deste ano, não foram adaptados para os novos produtos. E disse também que eles foram projetados para não terem a mesma queda repentina de desempenho dos atuais - uma característica que reduz o pico de aderência. Depois de dois dias de testes, a FIA vai ouvir as equipes e tomar sua decisão sobre quais pneus serão usados.

Enfim, o justo reconhecimento

O paranaense Raul Boesel foi entronizado na Hall of Fame do Campeonato Mundial de Endurance, título que ele conquistou em 1987 correndo pela equipe Jaguar, dirigida pelo escocês Tom Walkinshaw. Sua conquista, porém, foi ofuscada no Brasil pelo título de Nelson Piquet e pelo terceiro lugar de Ayrton Senna na Fórmula 1 no mesmo ano.

Boesel foi também, junto com Emerson Fittipaldi, um dos primeiros brasileiros a brilhar na Fórmula Indy. Seus melhores momentos foram em Indianápolis, onde por duas vezes largou na primeira fila e teve uma vitória probabilíssima arrebata de suas mãos por uma inexplicável chamada para os boxes para um reabastecimento totalmente desnecessário. Hoje, como um renomado DJ, Boesel recebe da FIA o justo reconhecimento a sua brilhante carreira.

Esse e outros assuntos serão comentados por mim e pelo Cassio Politi no podcast Rádio Paddock, que será gravado às 20h30 dessa segunda-feira ao vivo no canal Lito Cavalcanti no YouTube.

Imagem: Peter J Fox/Getty Images

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