Afonso Cavalheiro Neto

A escola como expressão e resposta às exigências dos modelos de produção do capital

21/08/2018 08h10

A produção acadêmica, principalmente, no âmbito dos estudos sociológicos, políticos, filosóficos da educação, se detém nas análises críticas, especialmente em relação ao novo paradigma produtivo da flexibilidade. Os autores que tratam dessa temática se destacam por uma forte crítica ao neoliberalismo, especialmente pelo seu caráter economicista excludente. São objetos de crítica não só a ideologia neoliberal, mas suas estratégias de reforma educacional como a autonomia da escola, a gestão, avaliação institucional, formação e profissionalização de professores e o projeto pedagógico.

A crítica generalizante a essas ações acaba não considerando que algumas delas podem ser legítimas também numa política educacional de esquerda, uma vez que, segundo Libâneo (2004), a autonomia da escola e a descentralização, por exemplo, são, também, propostas que marcaram no passado as lutas dos professores de esquerda e que continuam sendo admitidas como necessárias e válidas para os objetivos de melhor qualidade das escolas.

Essa perspectiva da sociologia crítica é importante, pois, ao mesmo tempo em que denuncia o papel da escola como reprodução da estrutura social, sustenta a importância da ação dos sujeitos e a possibilidade de uma escola crítica centrada no contexto dos alunos, e nas novas conquistas sociais. Entretanto, ao criticar a psicologia comportamental e a cognitiva por estarem voltadas para questões mais imediatas e mais metodológicas, com pouca ênfase na análise das relações de poder, da ideologia, da cultura, a sociologia crítica também desconsidera as contribuições da didática e da psicologia no processo de ensino e aprendizagem.

Concordamos que a escola é espaço de produção de cultura e de luta, mas acreditamos também que as mediações cognitivas, o desenvolvimento de processos cognitivos internos e o progresso na leitura crítica da realidade são formas de construção do indivíduo e de sua cidadania, ainda que não fique suficientemente esclarecida a forma pela qual os professores transpõem as análises dos fundamentos sociais e culturais do currículo para as práticas 80 pedagógicas.

Porém, consideramos que as relações sociais na sala de aula estão impregnadas de relações de poder. Em síntese, a produção acadêmica fundamentada na sociologia crítica apresenta alguns pontos em comum: uma descrença no saber positivado, crítica dos paradigmas clássicos do conhecimento, contrários às formas de sistematização do conhecimento, um caráter opressivo em relação aos saberes, a identificação do saber, na relação de cumplicidade com o poder.

Sobre a forma com que a produção crítica se posiciona em relação a escola, Severino (1986), diz que, quando aborda os temas educacionais, o faz exclusivamente para denunciar o caráter sistemático, desumanizador e repressivo dos conteúdos e dos meios, de forma que a institucionalização do processo pedagógico passa por severas críticas, quando abordada.
Percebe-se uma clara tendência em desconsiderar a tradição pedagógica e psicológica e ignorar a importância dos conteúdos escolares para a formação geral; com isso fica à margem a necessidade social da escolarização, da realidade das salas de aula e dos processos reais de ensino e aprendizagem. É verdade que o contexto social e cultural é integrante da aprendizagem, que as práticas de relações sociais criadas na escola atuam na formação dos alunos, que se aprende melhor com base em situações reais do cotidiano, mas a priorização das relações sociais e culturais, do emocional e do imaginário não responde a todas as necessidades da escola e também não se aplica a todas as necessidades do ensino e da aprendizagem.

Portanto, devemos considerar o contexto externo da escola, pois entendemos o aluno como sujeito social e histórico e também os processos internos da aquisição do conhecimento e do desenvolvimento das capacidades de pensamento, e das competências profissionais dos professores. As transformações atuais da sociedade tornam inevitável que se compreenda o país no contexto da globalização, da revolução tecnológica e da ideologia do livre mercado.

Por outro lado, com o aumento dos bens de consumo e da difusão cultural, surgem a fome, o desemprego, a doença, a falta de moradia e o analfabetismo das letras e da tecnologia. Não se pode, por isso, negar o progresso técnico, o avanço do conhecimento e os novos processos educativos e de qualificação, e nem 81 permanecer somente no plano da resistência.
Acreditamos que devemos disputar concretamente o controle do progresso técnico do avanço do conhecimento e da qualificação. A educação precisa oferecer respostas concretas à sociedade formando quadros de profissionais para o desenvolvimento e para geração de riqueza que sejam capazes, também, de participar criticamente desse processo.
Conclui-se, com essas considerações, que os eixos norteadores das ações não significam a supervalorização da competitividade, do individualismo, da liberdade excessiva, da qualidade total e da eficiência, e sim da solidariedade social, da igualdade da democracia e da qualidade social. A escola está vivendo sob um novo paradigma, que estabelece uma pedagogia da qualidade, mas, esta não pode ser a tratada nos parâmetros da qualidade economicista.

A escola não é uma empresa, e o aluno não é um cliente da escola, mas parte dela. A escola não pode ignorar o contexto político e econômico, no entanto, não pode estar subordinada ao modelo econômico e a serviço dele. Entendemos que a educação de qualidade é aquela mediante a qual a escola promove, para todos o domínio dos conhecimentos e o desenvolvimento de capacidades cognitivas e afetivas indispensáveis ao atendimento de necessidades individuais e sociais dos alunos, bem como, a inserção na cidadania, também, como poder de participação tendo em vista a construção de uma sociedade mais justa e igualitária.

Qualidade é um conceito implícito à educação. Nesse sentido, é pela articulação da escola com o mundo do trabalho que se torna possível a realização da cidadania, por meio da incorporação de conhecimentos, de habilidades técnicas, de novas formas de solidariedade social e vinculação do trabalho pedagógico com as lutas sociais.

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