Afonso Cavalheiro Neto

Inovação de verdade é mudança de comportamento

03/08/2018 14h52

A inovação necessária no sistema educacional é uma mudança de comportamento dos indivíduos que formam a escola em relação a um contexto real. Se o contexto é a sociedade, ela está mudando, se são os mercados, eles mudam diariamente, e se são as profissões, elas mudaram muito mais nos últimos 50 anos do que nos 200. Inovação é uma mudança real, que tem impacto e afeta a vida das instituições de ensino.

Hoje, uma reflexão precisa ser feita em relação ao fazer pedagógico: se a sala de aula e os comportamentos associados ao processo ensino aprendizagem não mudarem, todas as instituições, estruturas e organizações, métodos, processos e conteúdos que conhecemos se tornarão irrelevantes, quando não mais atenderem as demandas do seu contexto. Ultrapassadas, elas serão substituídas por outras formas e locais de aprendizado. Ao contrário do que ainda muitos daqueles que são personagens principais do sistema educacional pensam e professam, o essencial no processo educacional não é o ensino de qualidade, mas o aprendizado de qualidade.

É preciso repensar a sala de aula e talvez até acabar com a sala e a aula na estrutura e do jeito que estamos acostumados. É preciso que a sala de aula se transforme em um ambiente de aprendizado baseado em simulações, projetos, análises de contextos, trabalhos em grupo, criação e construção de soluções para problemas, muitos deles reais e concretos. Não é mais possível ficar numa sala de aula agindo como um instrutor projetando slides e palestrando sobre textos de livros que os alunos poderiam ter lido antes, para discutir, debater e aplicar em um projeto.
Nenhuma dessas inovações imediatas depende diretamente de tecnologias especiais, mas sim, de uma mudança radical no comportamento dos professores e alunos. A mudança não depende somente de uma introdução de novas tecnologias, ou de recursos físicos e financeiros, é preciso inovar de verdade, é preciso rever as bases sobre as quais a prática de ensino está fundamentada, para assim conquistarmos resultados mais relevantes.

As novas Tecnologias podem ter um papel fundamental quando forem utilizadas com um propósito e como parte de um conjunto de métodos propostos e processos de aprendizagens. A tecnologia realmente pode ajudar no processo educacional se for usada para criar engajamento, participação, criatividade e não apenas para desenvolver a habilidade no uso das ferramentas pura e simplesmente.
A educação superior carece mais de um sistema inovador nas formas de promover a aprendizagem, porque trabalha com alunos mais experientes e com interesses específicos. A Universidade é o último estágio de aprendizado formal dos alunos antes do mercado de trabalho, e em geral, a grande maioria dos professores encontra dificuldade para motivarem seus alunos a participarem de uma aula clássica com foco mais conteudista. No dia em que mudarmos a estrutura do ensino superior de disciplinas isoladas e passarmos a ter, em larga escala, um aprendizado em contexto, e contínuo, por e para toda a vida, vamos mudar o cenário educacional do nosso país.

Nós estamos no Brasil hoje muito longe de uma mudança, investimento, engajamento e dedicação adequados para evoluirmos dos últimos lugares nos rankings mundiais da educação para alcançarmos uma posição mais confortável. De que adianta ser uma das dez maiores economias do planeta e ao mesmo tempo ser uma sociedade mal educada, menos culta, mais desigual, mais violenta?

O sistema educacional é o principal mecanismo de transformação da sociedade. Precisamos começar a fazer diferente e parar de fazer algo que não tem mais finalidade, muitas vezes com base em teorias polarizadas, a maior parte delas, sem qualquer comprovação prática de sua efetividade no sistema educacional. Não é fácil mudar o arranjo educacional de um curso de graduação. Educação muda às pessoas. Inovação é mudar o comportamento das pessoas. Inovar no sistema educacional é mudar o comportamento daqueles, que muitas vezes, não estão dispostos a terem o seu comportamento modificado.

Leia outros artigos de Afonso Cavalheiro Neto