Afonso Cavalheiro Neto

Novo Ensino Médio traz de volta o “prático” para ocupar o lugar dos Professores de Educação Física

11/04/2018 11h51

A Educação Brasileira vive uma crise que se instala, principalmente, no Ensino Médio. No dia 16 de fevereiro de 2017 foi aprovada a lei que visa à mudança curricular referente à educação básica brasileira. A disciplina de Educação Física continua como obrigatória, contudo, outros componentes do texto da lei indicam retrocessos no papel da Educação Física no Ensino Médio.

O objetivo aqui é alertar para uma possível desvalorização do professor de Educação Física com a entrada de profissionais com o "reconhecido" notório saber e com a inclusão da formação técnica e profissional no arranjo curricular. A entrada desse profissional retrocede aos avanços do campo desenvolvidos nos anos 1980, 1990 e 2000 quando a Educação Física se consolidou como disciplina curricular obrigatória e como campo acadêmico científico.

A presença de "o notório saber" se apresenta de forma prejudicial para todos aqueles que trabalham com educação e nela investem seus tempos de estudos e pesquisas. Este retrocesso ocorrerá de forma trágica e, pode trazer de volta o conhecido "prático": seja o ex-atleta, o militar ou qualquer pessoa com experiência em uma das práticas corporais existentes.

Formar professores não é tarefa fácil. Pimenta (1999) nos alerta que os cursos de formação inicial muitas vezes se distanciam da realidade das escolas brasileiras, sobretudo, quando não conseguem compreender as contradições existentes na prática pedagógica. Isso dificulta na geração de novas identidades docentes.

A presente lei (Lei de Conversão (PLV) 34/2016.) da reforma da educação nos diz que os profissionais com notório saber podem atuar nas escolas caso comprovem experiência profissional: seja em unidades educacionais ou em corporações privadas que atendam exclusivamente o inciso V do artigo 36. Mas, afinal, do que trata o inciso V? O inciso V acrescenta a formação técnica e profissional ao EM. Ora, o esporte de rendimento e de espetáculo que, como mostra Bracht (1999), está vinculado ao binômio derrota/vitória e a superação social, a competição técnica e a racionalidade se enquadram perfeitamente nas características das formações técnicas e profissionais, sobretudo, pressupondo suas ideologias.

A possível ascensão dos profissionais do notório saber pode causar um retorno do dualismo corpo/mente, bem como a volta da Educação Física como mera reprodução na escola. Ou seja, pautada pelos elementos técnicos repetitivos, acompanhada da racionalidade instrumental, sem o devido trato pedagógico. Este retorno trágico, contudo, não se dará no âmbito acadêmico e intelectual, já que neste espaço essas discussões já foram superadas e, os professores que hoje são formados nas Universidades têm esses saberes bem estabelecidos.

Acreditamos que a ascensão do notório saber é prejudicial, pela desvalorização do professor e do aluno em prol da valorização dos elementos puramente técnicos de ensino como apostilas, manuais e os processos. E pelo retorno dos fantasmas já superados pela Educação Física e pelo ?desinvestimento? do Estado no que tange a formação de professores.

A Educação Física sempre terá lugar no Ensino Médio, mas a pergunta que deve ser feita, contudo, é: Qual Educação Física ocupará o lugar neste Ensino Médio? Neste Ensino Médio que se desenha há um forte indício que a Educação Física passe a se apresentar por meio de uma visão atlética e esportivizante da vida.

Desse modo, retrocederemos ao controle do corpo via racionalização e repressão (BRACHT,1999). Sabemos que esse processo não se dará de forma simples, pois os professores que nas escolas atuam, resistirão. Contudo, a presença do notório saber pode enfraquecer, ainda mais, a luta deste corpo docente. Por fim, o debate está aberto e nunca é tarde para se inserir nele.

Fonte: A Educação Física no "novo" Ensino Médio: a ascensão do notório saber e o retorno da visão atlética e "esportivizante" da vida. Gabriel Carvalho Bungenstab e Ari Lazzarotti Filho.

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