Afonso Cavalheiro Neto

Solução está nas urnas e não nas armas

03/10/2017 17h54

Dias atrás um general do exército reacendeu no país um debate antigo, sugerindo que pudesse haver uma imposição militar para conter a crise política. A afirmação gerou uma acalorada reação, tanto de partidários de uma nova intervenção, quanto de pessoas que rechaçam completamente a mera hipótese, evocando os crimes praticados pelo regime de 1964 a 1985. O ministro de Defesa, Raul Jungmann, e o comandante do Exército decidiram não punir formalmente o general Mourão.

Ainda assim, é possível tal questionamento: Qual a possibilidade de haver uma nova intervenção militar? De acordo com a historiadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Dulce Pandolfi, esta possibilidade é remota, mas se preocupa com a baixa reação da sociedade a esta possibilidade.

De acordo com a historiadora o cenário pré-golpe de 1964 e o Brasil de agora são contextos completamente diferentes. Na década de 60, havia o contexto da Guerra Fria e do comunismo e esses eram os principais argumentos para a intervenção. Naquela época, a corrupção também foi usada para legitimar o golpe.

A semelhança existe em três contextos. Temos um ponto em comum entre 1954, no fim da Era Vargas; em 1964, com Jango; e em 2014, com o governo Dilma: projetos de um país mais inclusivo, de nacional desenvolvimentismo. O Brasil era menos independente, mas hoje estamos mais consolidados enquanto nação e uma intervenção precisa ser descartada.

O papel das Forças Armadas é outro, estabelecido pela Constituição e por menor peso que tenha o general Mourão, ele expressa o pensamento de uma corporação. Acho lamentável que o Exército tenha admitido uma fala desse tipo. Será que o corte de orçamento das Forças Armadas anunciado pelo governo e o impasse sobre novas regras de aposentadoria militar influenciaram o discurso de intervenção?

A democracia se aperfeiçoa com mais democracia. É uma ilusão pensar em um governo militar como forma de combate à corrupção, afinal, o Regime Militar também foi corrupto, conforme demostra Marcelo Freire, jornalista da UOL (https://noticias.uol.com.br/conheca-dez-historias-de-corrupcao-durante-a-ditadura-militar.htm).

Ocorre que alguns políticos, covardemente, frente ao contexto de descrédito político que vive o Brasil, e ainda mais pela falta de aprovação do governo atual, se escondem atrás de discursos de intervenção, o que evidencia a incompetência da instituição que representam e principalmente negam o próprio juramento. É preciso que uma reflexão crítica seja feita sobre os motivos eleitoreiros que estão por trás desses discursos.

Leia outros artigos de Afonso Cavalheiro Neto